Montar um orçamento mensal é colocar no papel quanto entra, quanto sai e o que sobra — ou falta — antes que o mês termine. Você não precisa de uma planilha complicada: um caderno, uma tabela simples ou um aplicativo já resolve, desde que registre os valores reais.
1. Comece pelas receitas
Receitas são todos os valores que entram no orçamento. Separe o que é fixo, como um salário que costuma cair no mesmo valor, do que é variável, como trabalhos extras, comissões ou vendas.
Se a renda variável não for garantida, não conte com o melhor mês para pagar as contas. Use uma estimativa conservadora e registre o valor recebido quando ele entrar. O Banco Central trata o orçamento como uma forma de planejar receitas e despesas do período, enquanto a SUSEP recomenda organizar receitas pela frequência e pela variação dos valores.
2. Liste as despesas por tipo
Despesas fixas se repetem e costumam ter valor igual ou parecido: aluguel, condomínio, mensalidade, plano de saúde e parcelas. Despesas variáveis também podem aparecer todo mês, mas mudam conforme o consumo: mercado, energia, combustível, telefone e lazer.
Despesas eventuais ou extraordinárias não acontecem todos os meses, mas precisam entrar no planejamento: material escolar, presentes, consultas, manutenção e viagens. Uma maneira prática de lidar com elas é somar o que você costuma gastar ao longo do ano e dividir por 12. Assim, uma despesa anual de R$ 600 vira uma reserva mensal de R$ 50.
3. Faça um orçamento de R$ 3.000
Imagine uma pessoa que recebe R$ 3.000 líquidos por mês e mora sozinha. É apenas um cenário didático; os seus valores podem ser bem diferentes.
Receitas
| Grupo | Item | Valor |
|---|---|---|
| Receita | Salário líquido | R$ 3.000 |
| Despesas fixas | Aluguel e condomínio | R$ 900 |
| Internet e celular | R$ 120 | |
| Transporte contratado | R$ 180 | |
| Parcela já assumida | R$ 200 | |
| Total fixas | R$ 1.400 | |
| Despesas variáveis | Mercado e alimentação | R$ 650 |
| Água e energia | R$ 180 | |
| Transporte variável | R$ 170 | |
| Lazer e pequenos gastos | R$ 200 | |
| Total variáveis | R$ 1.200 | |
| Provisão | Saúde, presentes e manutenção | R$ 150 |
| Total de saídas / saldo | R$ 2.750 / R$ 250 | |
Receitas de R$ 3.000 − saídas planejadas de R$ 2.750 = saldo de R$ 250.
Esse saldo não é dinheiro “sem destino”. A pessoa pode direcioná-lo para uma prioridade definida, como formar a reserva de emergência, antecipar uma dívida cara ou cobrir uma despesa irregular que apareça. O importante é registrar a decisão para não gastar o mesmo valor duas vezes.
Água e energia aparecem como despesas recorrentes cujo valor varia. Os R$ 150 não são uma despesa já realizada: são uma provisão para formar, mês a mês, dinheiro para gastos que podem acontecer depois.
4. Comece pela renda disponível
Use o valor que realmente está disponível para uso. Para quem é assalariado, normalmente é a renda líquida recebida na conta, depois dos descontos habituais. Quem trabalha por conta própria deve separar impostos, contribuições e custos necessários da atividade antes de tratar o restante como dinheiro do orçamento pessoal. Isso não substitui orientação tributária; é apenas uma forma de não misturar dinheiro da atividade com dinheiro para as contas da casa.
5. Se sua renda varia
Autônomos, comissionados e freelancers podem montar o mês usando uma estimativa conservadora, baseada no que é razoável esperar — não no melhor mês. Quem recebe semanalmente pode somar as entradas previstas e conferir o orçamento a cada semana. Quando entrar mais do que o previsto, registre o excedente separadamente até decidir seu destino.
6. Como registrar o cartão de crédito
Escolha um único momento para registrar a compra: na data da compra ou no fechamento da fatura. Não registre a compra e depois a fatura inteira como duas despesas, pois isso conta o mesmo gasto duas vezes. Uma compra parcelada deve aparecer nas parcelas dos meses futuros; anote o total de parcelas e o valor que ainda falta. A fatura serve para conferir o que já foi registrado e pagar o compromisso. O crédito rotativo merece atenção porque transforma uma fatura não paga em uma dívida que pode crescer rapidamente; evite usá-lo para cobrir um déficit recorrente.
7. Planeje despesas anuais
IPVA, IPTU, matrícula, material escolar, seguros e manutenção são previsíveis mesmo quando não são mensais. Estime o valor e divida pelos meses restantes até o pagamento. Uma despesa de R$ 1.200 com seis meses pela frente exige uma provisão de R$ 200 por mês. Registre essa provisão no orçamento e não trate o pagamento futuro como surpresa.
8. Compare o planejado com o realizado
No início do mês, faça uma previsão. Durante o mês, anote cada pagamento e compare com ela. Um mercado previsto em R$ 650 pode terminar em R$ 730; a diferença de R$ 80 precisa aparecer no fechamento. Sem essa comparação, o orçamento vira apenas uma lista de intenções.
Reserve alguns minutos uma vez por semana para atualizar os gastos. No fim do mês, marque o que ficou acima ou abaixo do planejado e ajuste os valores do próximo período. Para organizar esse acompanhamento, veja também o passo a passo de como organizar suas finanças.
9. O que fazer com o resultado
Quando sobra dinheiro
Confirme primeiro se nenhuma conta ou despesa eventual ficou de fora. Se o saldo for real, dê a ele uma função: recompor uma reserva, pagar uma dívida, guardar para uma despesa anual ou realizar um objetivo. Não é necessário decidir tudo no mesmo dia; basta evitar que o valor desapareça sem registro.
Quando fica no zero
Um orçamento zerado pode ser equilibrado, mas deixa pouca margem para imprevistos. Observe se existe uma despesa eventual que deveria ser prevista ou se algum gasto variável está sempre acima da estimativa. Se possível, crie uma pequena folga antes de assumir novos compromissos.
Quando falta dinheiro
1. Calcule o tamanho do déficit: quanto falta para fechar o mês?
2. Preserve moradia, alimentação, saúde, transporte necessário e contas essenciais.
3. Revise gastos ajustáveis e suspenda o que pode esperar.
4. Liste dívidas, saldo, juros, vencimento e parcela; procure revisar condições antes do atraso.
5. Evite criar uma dívida cara nova para cobrir um déficit que se repete.
6. Avalie formas realistas de aumentar a renda, como um trabalho pontual ou uma atividade de renda extra, sem contar com dinheiro incerto antes de recebê-lo.
10. Faça uma revisão semanal de 5 minutos
Uma vez por semana, atualize os gastos, confira o cartão, veja quais categorias estão próximas do limite, atualize o saldo e corrija o restante do mês. Se mercado já consumiu quase todo o valor previsto, reduza outra categoria ajustável antes de assumir novos gastos.
11. Modelo copiável
Copie este modelo em um caderno ou documento:
RECEITAS
(-) DESPESAS FIXAS
(-) DESPESAS VARIÁVEIS
(-) PARCELAS/COMPROMISSOS
(-) PROVISÕES PARA DESPESAS FUTURAS
= SALDO DO MÊS
DESTINO DO SALDO: reserva, dívida, objetivo ou investimento, quando adequado.
12. Monte seu orçamento agora
1. Anote a renda líquida que estará disponível.
2. Liste despesas fixas, variáveis e parcelas.
3. Calcule provisões para despesas anuais e eventuais.
4. Subtraia todas as saídas das receitas.
5. Dê um destino ao saldo ou monte um plano para o déficit.
6. Revise em cinco minutos no fim de cada semana.
Perguntas frequentes
Preciso usar a regra 50/30/20?
Não. Ela pode servir como referência para algumas pessoas, mas não considera todas as rendas, dívidas, custos de moradia e objetivos. Comece pelos seus valores reais e ajuste o orçamento à sua situação.
Devo montar o orçamento no começo ou no fim do mês?
Faça uma previsão antes do mês começar e um fechamento depois. A previsão orienta as decisões; o fechamento mostra o que precisa mudar.
Como incluir uma despesa que não acontece todo mês?
Estime o total anual e divida por 12, ou reserve um valor nos meses em que a despesa costuma ocorrer. O método escolhido precisa caber no seu fluxo de caixa.
Fontes consultadas
As classificações de receitas e despesas e a fórmula receitas menos despesas foram conferidas em materiais públicos de educação financeira da SUSEP e do Banco Central. O artigo é educativo e o exemplo é fictício.